Olhai a mentira…
Notícias Magazine #658 – 2/Jan/2005
Psicólogo de serviço – Da mentira
Isabel Leal – Psicóloga
1. Sendo dado que a verdade já não é o que costumava ser, interroguemo-nos sobre a mentira, a fluidez, constância e função da recriação habitual, e até espontânea, de verdades alternativas.
As mentiras, descaradas, veladas, a propósito, piedosas ou nem por isso, as mentiras evitativas, rebuscadas, defensivas, aí estão todos os dias, a garantir-nos que os valores mais permanentes são aqueles que classificamos negativamente.
Mentimos. Mentimos como podemos e como somos capazes. Com os olhos baixos ou demasiado luminosos, com um leve enrubescimento e alguma gaguez, com naturalidade e engenho como se contássemos uma história escorreita, com a rapidez e precipitação de quem despacha um assunto incómodo. Depois, temos surtos de arrependimento, impressões borbulhantes e viscerais da família do medo. Ou então sentimo-nos satisfeitos com as nossas competências de lidar com assuntos chatos. Podemos ficar divertidos com as funções putativas e conotativas das palavras. Mas provavelmente não nos ocorre nenhum pensamento, nenhum juízo de valor sobre nós próprios e o que dizemos.
2. Mente-se por tudo e por nada. Mente-se para não incomodar nem afligir, para não se ser demasiado agressivo ou brutal, para não se dar má impressão, para não humilhar o outro; mente-se até para se ser simpático e corresponder ao que o outro ou a situação propiciam.
Mente-se porque não se sabe fazer de outra maneira ou porque, mesmo sabendo-se, parece mais esperto ou mais económico iludir a verdade. Mente-se para fugir a um controlo incomodativo e intrusivo e mente-se também como forma de escapar a discussões ou a sanções. Mente-se por medo de desagradar, por estimáveis, ainda que incompreensíveis, boas maneiras, mente-se por desculpa, por arrogância ou por desprezo. Mente-se por palavras e actos, por ausências e atabalhoamentos.
Mente-se no desempenho de funções profissionais, por utilidade cívica e serviço público, por razões políticas e estratégicas, por características de personalidade, por circunstâncias incontornáveis. Mente-se porque não se aguenta demasiada realidade, porque não se dá por isso e até porque sim.
3. Somos genuinamente capazes de acreditar que as histórias que contamos, os factos que ocultamos, as respostas ideomotoras que damos, as sugestões que facilitamos a pedido, não são mesmo mentiras.
Admitindo in extremis que não são toda a verdade, apenas e só a verdade, consideramos que são a quantidade possível e desejável dessa ubíqua e perniciosa verdade que vai bem a santos de altar e mal a tudo o resto.
Achamos que é uma questão de gestão de recursos, a acessibilidade às mil fórmulas alternativas de lidar com insustentabilidades, mesmo usando fórmulas tão mentirosas quanto úteis.
Ainda assim, nunca nos esquecemos de exortar as crianças que não se deve mentir.
April 27th, 2005 at 18:14
Isso e’ mentira!