Olhai os inimigos…

Notícias Magazine #651 – 14/Nov/2004
Editorial – porque hoje é domingo
Isabel Stilwell

Não fomos preparados para ter inimigos. Esqueceram-se de uma coisa. Esqueceram-se de nos ensinar que nem toda a gente gosta de nós. E a viver bem com essa certeza. Mas não, mandaram-nos para o mundo convencidos de que cada vez que não conseguíssemos acender a faísca da empatia nos outros tínhamos falhado. Que se não fôssemos capazes de revelar, logo ali num primeiro encontro, a bondade da nossa alma, a honestidade das nossas intenções, a dedicação de que somos capazes, a culpa era nossa. Ninguém nos preparou para o dia em que alguém seria indiferente às nossas tentativas de «ser amigos» ou, pior, as rejeitasse, e embora tenhamos dado de caras com elas desde o primeiro dia em que pusemos um pé na rua, a força mágica da catequese materna não nos permitiu mudar de estratégia. E lá continuamos nós, convencidos de que a nossa missão na Terra era apertar a mão energicamente a todos os nossos interlocutores, e a sentir um nó na garganta quando o outro mantém os braços atrás das costas e não quer entrar no jogo. Estupidamente, em lugar de aceitarmos a opção alheia, continuamos a lutar desesperadamente para que gostem de nós, como se fosse fundamental para o nosso equilíbrio receber dos outros um carimbo de aprovação. E mesmo quando nos zangamos com quem nos afasta, ou agride, mesmo que sejamos capazes, num esforço de maturidade e racionalidade, de «cortar» com quem não nos vê como nós nos vemos, ficamos como que assombrados por dentro. Um desassossego que nos impele sempre a dar mais um passo, a troco da absolvição de um crime, que em consciência não cometemos. Pois é, acho que temos de educar os nossos filhos de outra maneira, a estenderem sempre a mão, mas capazes de aceitar que nem todos os meninos do recreio serão seus amigos. E que a culpa não é sua, mesmo que também não seja dos outros.

2 Responses to “Olhai os inimigos…”

  1. Maria Says:

    Olá Sr jornalista Isabel Stilwell
    Preciso de desabafar
    Concordo plenamente com o facto de que nem todas as pessoas serao nossas amigas. E ainda bem se não seriamos super qualquer coisa… e não seres limitados. Mas as vezes… e concretamente, conheci uma pessoa com a qual houve uma empatia mutua, apesar de ser uma figura semi-publica.
    Prometeu-me ajudar e teve 3 meses para me dar um não. Acho que o desiludi mas erradamente liguei-me a ele(nesses 3 meses) confiando mentalmente os meus semi-problemas a ele. Problemas que são relações muito importantes e que nos trazem uma enorme riqueza mas que sabemos que temos que amadurecer um dia e na relação. Eu sei que errei em ter criado este tipo de relação com essa pessoa e por isso e por não conseguir resolver a situação pensei que talvez ajudasse falar com ele para suavizar a relação (é um pouco mais complicado). Mas ele recusa-se a falar e o pior é que eu tenho de o ver na faculdade e sinto-me triste e mal depois de o ver. Será que falar apos 2 anos , não ajudaria? Apesar de ainda ter de crescer? Por acaso essa pessoa é seu amigo. Espero que seja imparcial ou por outra falei pouco para me poder ajudar. Mas que é um grande desespero é.
    Obrigado e desculpe.

  2. Maria Says:

    Olá Sr jornalista,
    Não sabia que este comentario iria ficar aqui, na internet. Não queria e não sei como apagar. Se fosse possivel agradecia.
    Obrigado

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