Olhai os narcisos…

Notícias Magazine #635 – 25/Jul/2004
Editorial – porque hoje é domingo
Isabel Stilwell

Ensinaram-nos a procurar resolver todos os conflitos. A partir do princípio de que os erros estão sempre dos dois lados, e que é sempre possível construir pontes. Com a idade descobre-se, dolorosamente, que tudo isto às vezes é mentira. Porque há pessoas que querem ganhar sempre e em toda a linha. Os psiquiatras já deram por eles e até já lhes puseram um nome – são os narcisos.
Como estão fascinados por aquilo que acreditam ser o seu reflexo, são incapazes de se olhar com o mínimo de objectividade. Não são eles que afastam os outros com os seus gestos cruéis ou a sua língua viperina, o seu egocentrismo ou o seu discurso circular e agressivo, mas são os outros que incompreensivelmente os tratam com injustiça. São absolutamente surdos a tudo o que não seja lisonja, defendendo-se das críticas com a plena convicção de que resultam apenas da inveja alheia. Por vezes quem os ouvisse falar teria a impressão de que fazem um acto de contrição, mas quando se presta mais atenção ao que dizem, percebe-se que consideram os seus defeitos qualidades, que há alguns «escolhidos» que só ganham em ter certos traços da personalidade mais vincados. Do género, «eu posso ser duro e até magoar as pessoas com aquilo que digo (aparente defeito), mas é só porque sou muito franco (qualidade), muito corajoso (qualidade) e muito leal (qualidade)». Ou seja, por outras palavras, o erro só pode ser teu! Mas os narcisos, tenho aprendido eu, podem ter aparências diferentes. Ele há os mais transparentes, que se vêem e ouvem a milhas, com as suas gabarolices quase infantis, o seu autismo em relação ao mundo, e depois há aqueles que assumem uma capa de humildade, que tem como objectivo último torná-los ainda mais admiráveis. São aqueles que nomeiam um sem-fim de obstáculos superados, acabando as frases com um «mas também não quero louros, que até nem ligo a essas coisas» ou um «e mesmo que ninguém me reconheça valor, voltava a fazer tudo igual», para citar apenas alguns dos muitos dos «grandes finais» com que rematam as suas histórias douradas. Mas por muito que as faces mudem, o essencial é idêntico: o mundo não os compreende, não lhes faz justiça e, acima de tudo, não os merece!

E o pior é que não há nada a fazer, e lá voltamos ao princípio. Não há nada, mesmo nada a fazer, porque todos os discursos tendentes a mostrar-lhes que «não é bem assim» estão votados ao fracasso. O narciso não quer, nem pode, abrir brechas na sua presunção porque, se visse como está longe da imagem que tem de si, caía na mais profunda das depressões, ou suicidava-se mesmo. E para não correr esse risco, o narciso não muda. Porque para mudar é necessária flexibilidade, e o narciso se se mexesse estalava, e ficava como um vidro de automóvel depois de ter levado com uma pedra. Por isso, e até por amor aos narcisos, a única solução é mesmo esquecer os conselhos dados na catequese, e mudarmo-nos nós. Para outra casa, outro bairro, outro emprego, ou mesmo outro país. Porque contra um narciso nunca podemos ganhar. Ponto final.

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