Concorrer é o que está a dar!
Eu ainda sou do tempo (ai que frase tão pusilânime) em que os concursos tinham principalmente um propósito – publicitar uma marca ou um produto. Nessa altura, os concursos representavam um certo investimento por parte do promotor do dito, que teria o retorno do seu investimento (o célebre ROI) por efeito secundário, normalmente um incentivo ao consumo.
Ainda me lembro da sorte de ter em mãos dos primeiros walkman’s Sony em Portugal, graças ao concurso feito pela Nestlé com o chocolate “crunch” em que era só comprar e enviar as provas de compra, para ficar habilitado – quantas mais enviasse, maiores as probabilidades. Os CTT também ganhavam com isso, certamente.
Ora, hoje em dia, observo um fantástico fenómeno, que mais parece simples oportunismo, onde uma entidade ou organismo promove um concurso, com nítido benefício directo e apenas (aparentemente?) económico. A grande mais valia para a sua realização e sucesso é ter muita exposição e conseguir chegar a muita gente ao mesmo tempo.
Nestes meus posts “event-driven” já tinha ideia de escrever sobre isto há algum tempo e o evento que o despoletou, desta vez, foi ouvir na TVI, pela segunda vez no espaço de uma semana, um concurso anunciado e a decorrer durante um jogo de futebol, que passo a descrever: ligar para um número 760-xpto, com o custo anunciado de “60 cêntimos + IVA” (até já colocam o IVA à parte para as contas líquidas serem mais fáceis) e, em cada 250 chamadas, uma delas é premiada com um bilhete (neste último caso era para o Benfica-Sporting, num total de 1000 bilhetes e também recentemente ofereceram 750 para o jogo do Sporting com o Newcastle, que tive a grande felicidade de ver – mas com bilhete comprado, mesmo).
Decidi juntar o “científico” ao “interesseiro” e como era para poder ver o jogo que possivelmente decide muito sobre o “título”, planeei ligar duas vezes; a verdade é que acabei por ligar uma terceira e tive que pensar muito bem na “figura de pato” que podia estar a fazer, para me conter de ligar uma quarta vez e posteriores…
Entrando no “esquema”, torna-se realmente viciante e é preciso muita força de vontade para não continuar, devo dizer. Após ligar, ouvimos o número e achamos que podemos “adivinhar” ou controlar o tempo de modo a acertar na audição do “250” do lado de lá, quando a verdade é que, rabiscados uns cálculos aqui ao lado, para darem 1000 bilhetes no decurso de poucos mais de 90 minutos de “bola”, significa que devem sair bilhetes a poucos mais que todos os 5 segundos, o que torna vã qualquer pretensão de tornar determinístico o “timing” da chamada – é puramente aleatório. Curiosos os números, não?
Ora, as contas são simples: caro telespectador, ajude a contribuir para o nosso “fundo” que por cada 150 Euros de “receita” oferecemos um bilhete que certamente não custa isso. Vá lá, toca a ligar que nós estamos a precisar de umas massas “on the side”.
Recordo-me de uma “oferta” da Optimus por alturas do Natal, em que por cada 100 SMS recebidos num certo número, o cliente sortudo nº100 recebia 5 euros de saldo, salvo erro. As contas são também fáceis – só se o SMS custasse 5 cêntimos é que as contas ficavam “quites”, o que não era, nem de perto nem de longe, o caso. Isto não é dar nada a ninguém, é ganhar dinheiro com os clientes, dado que o líquido dos números é fácil de fazer e favorável ao operador! Espanta-me que não escandalize e as pessoas participem.
Easy money.
Também no meu tempo, todos os concursos eram regulados por algum responsável do Governo Civil (e essa informação era claramente exposta pelos promotores); sabe-se lá, neste caso, se cumprem mesmo com o prometido, ou se oferecem bilhetes consoante a maior ou menor adesão ao concurso… Nunca os vi serem transparentes a esse respeito e, por exemplo, dizerem para parar de ligar por já terem sido “oferecidos” todos os bilhetes.
Também não esqueço que, independentemente do promotor dos concursos, seja por SMS ou chamada telefónica, existem intermediários que têm direito a parte do “bolo”, portanto, o português, quando concorre por estes meios, está no fundo a alimentar toda uma indústria – a dos serviços de valor acrescentado, que em boa ou má hora, se instalaram e começaram a massificar e parece estarem aí para ficar – pelo menos, enquanto a galinha dos ovos de ouro continuar a “dar”.
A parte “obscura” deste negócio é que o preço por sms/chamada nem sequer é sempre o mesmo parecendo deixado um pouco à descrição dos promotores ou apenas consequência do maior ou menor número dos envolvidos no processo (com os CTT o selo custava sempre o mesmo, para todas as moradas possíveis e imaginárias, no nosso território).
Não é justo citar só os concursos, claro, já que o “sistema” está presente em todo o tipo de votações e até às coisas mais estapafúrdias. Ainda me lembro de ouvir no rádio uma rubrica chamada “batalhas SMS” cujo único objectivo é fazer ganhar por SMS uma de duas músicas a ser tocada em air-play. Às vezes gostava de conhecer quem gasta tantos cêntimos para participar nessas coisas.
Este post dava pano para mangas, mas está a chegar ao limite de tempo e caracteres de fabrico.
Claro está que eu não tenho direito algum à indignação, nem sequer reclamação, se observarmos que só concorre quem quer, mas dava mesmo vontade de incitar à revolta popular e fazer o boicote a este tipo de concursos. Até porque assim podia ser que os ganhasse mais facilmente…
April 27th, 2005 at 11:47
Essa expressão de “dava pano para mangas” é minha!
Faça o favor de a retirar…
E para mim a mais escandalosa vi numa destas manhãs durante o meu pequeno-almoço!
Estava eu sentadinha à frente da tv e não é que estava a dar música na SIC Mulher??? Pois quem quisesse saber a música que estava a passar teria de mandar uma SMS pelo valor de 0,90€!!!!!!!!!!!
Vão roubar a outro lado…. Mais a mais, quem é que quer saber o nome da música???
April 29th, 2005 at 00:54
“Dava pano para mangas” e’ uma expressao tao popular que nao sabia que o criador era a miss xuinha… ja falei com o meu advogado e ele diz que mande ai os direitos de autor, que eu pago os royalties, com todo o gosto :-p

Quanto a esse preco, e’ o mesmo que ligar para o 12266 do servico quale - http://quale.pt.
Que por acaso so utilizei tres vezes e das duas ultimas nao mas identificou
Uma era do Jack Johnson, ate’ bastante conhecida e outra era da Kasey Chambers, ambos musica muito recomendavel e “somewhat popular”.
Eu nao ligo para la tao cedo, outra vez. Assim como assim, mais vale guardar a musica no gravador do telemovel (o meu nao tem camara, nem essas coisas, mas grava uns trechos de voz) e depois fazer o que faco “normalmente”: procurar atraves da letra da musica no amigo google
April 29th, 2005 at 14:52
EHEHEHEH!

Nada como experimentar para saber que não se quer repetir a dose!
Quanto aos direitos de autor… vou pensar no assunto!
October 21st, 2007 at 06:22
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